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Atlântida: ou o mito das condições perfeitas

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Em Atlântida todo mundo nasce artista, filósofo, atleta, virtuoso, sensível, rebuscado, rico e entusiasmado. Lá, eu sei, poeta algum sente angústia frente à estéril folha em branco. Todos bebem cores ao pôr do sol e tocam o fogo sem se queimar. Os concertos são como missas, apreciados com interna intensidade. Como num rito de passagem cada pequeno ser atlântido aprende a se expressar e quando atinge o grau máximo delirante de sua própria individualidade é convidado a honrar a história de seu povo junto aos seus pares. Ninguém nunca fracassou. Em Atlântida o medo foi banido por decreto e por consequência os humanos lá nascidos são de um tipo místico, mágico, altivo, extinto. Todos os dias navego procurando a ilha, mas só encontro a folha em branco, o serviço por fazer, o telefone tocando, cachorro latindo, a conta por pagar e o calor que entra por cada poro do meu corpo me fazendo suar, inutilmente, todos os dias. Mas, ela deve existir em algum lugar, à beira-mar, no meio do mato, numa caverna nas montanhas, no espaço sideral e, assim, minha busca me carrega cada vez  pra mais longe. A procura pelas condições ideais destrói o próprio ideal, partido, como no mito, por ferozes cometas, implacáveis terremotos, despedaçado na guerra diária da ordinária vida comum. Dos despojos nasce uma frágil, solitária e tímida esperança de que Atlântida se faz aqui,no concreto seco da dureza presente, uma ilha torta, mas com grandes potencialidades num imaginário plantado por demência ou ternura na crença em infinitas possibilidades conquistadas, compradas, por vezes negadas, mas nunca doadas.

J. Scarpelli

FOTOS por Perseu Azul e Rafael Vasconcelos, na série ” Em busca de Atlântida no miolo do Brasil”

4 comentários em “Atlântida: ou o mito das condições perfeitas

  1. Fernanda Tosta
    31/07/2013

    Lindo! Ficou nítida a ilustração de Atlântida aos meus olhos, mas nem todos conseguem enxergar mesmo estando nela, as vezes é preciso sair para poder voltar e ver como a dor é bela, notar a variação de verde das folhas e como é incomum a aquarela pintada nos céus todos os dias. Inspirador, amei as fotos😉

  2. J. Scarpelli
    31/07/2013

    Valeu, Nanda. Saudades demais!

  3. anna
    02/08/2013

    Genialmente poético!

  4. fatima
    22/02/2014

    Delicado sensível e forte! Não deixe de nos brindar com mais poesias e fotos.

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Publicado em 31/07/2013 por em Uncategorized.

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